Relatos

O depoimento de um pai historiador

Minha experiência gestacional e de parto: o depoimento de um pai historiador.
A minha esposa (Érica Ramos gatíssima e lindona) e eu ficamos sabendo que estávamos grávidos no mês de setembro de 2016. Ficamos felizes, pois era algo que queríamos já fazia um tempo. Bem a partir daí se iniciou uma experiência histórica pessoal, familiar e social. Em momentos como esse, busquei o que a História poderia contribuir para vivenciá-lo.
Procuramos, então, pensar em 2 coisas: como ia ser a gestação e o nascimento. Tínhamos e temos convênio médico, entretanto, os médicos e os seus procedimentos não nos agradavam, pois a maioria deles buscam a cesariana agendada. Dentro do contexto histórico brasileiro, médico, hospitalar e de saúde pública entendemos, mas não aprovamos, tais procedimentos.
Então, procuramos a Casa de Parto e Clínica Opima, junto às médicas Natália Carvalho (obstetra) e Andrea (pediatra), além da enfermeira obstetra Giovana e da Doula Samara. Elas foram cruciais nessa jornada, pois além de exercerem as suas funções para quais foram treinadas, elas trabalharam com uma coisa que foi de suma importância: Educação. Não no sentido acadêmico, mas, sim, a disposição de informações que desconstrói paradigmas enrijecidos na cultura hospitalar brasileira sobre o nascimento. Palestras (várias), livros, textos, vídeos de depoimentos e filmes contribuíram enormemente para que ficássemos mais convictos e seguros da nossa posição em preferência ao parto normal sem intervenção médica ou farmacológica.
Desta maneira, durante a gestação, analisando os discursos das palestras, dos familiares que discordavam ou não da gente e das representações do ato de nascer levantei algumas reflexões:
1- Questão de gênero: é antes de tudo uma questão de identidade e de luta de gênero. Sim, sem dúvida. O papel prodigioso da e do empoderamento da mulher no ato de nascer, os quais foram retirados pela cultura hospitalar, é um dos argumentos do parto humanizado. Desacostumaram a equipe hospitalar à aprender a esperar o tempo delas e da criança, e para acelerar o processo do nascer utilizam de argumentos machistas (do tipo "na hora de fazer não doeu, então por que grita dessa maneira?" Ou abusos sexuais nas grávidas) e práticas obstétricas, que acabam as desestimulando ao parto e as humilhando. Na luta de classes entre o machismo e o feminismo, o parto é um elemento que pode ser usado por ambos como um artifício para o enfrentamento entre opressores e oprimidos. Todo o poder a elas!
2- O nascer é um ato histórico: Sem dúvida. O nascimento é uma ação humana que está atrelado a um contexto histórico, que varia o seu sentido pela sociedade de acordo com a disposição psíquica e material de um dado momento. Eu me questionava durante as palestas: Há 7 milhões de ano o parto sempre foi "normal ou natural", por que raios houve essa mudança? Comecei a encontrar a reposta buscando estudar o processo da Revolução Industrial. Até a Idade Média, o tempo estava atrelado fortemente à natureza. As estações do ano, as festas, o trabalho, a morte e, claro, o nascimento (pois se esperava o tempo natural do bebe e da mãe para parir). Uma das rupturas que o processo revolucionário industrial promoveu foi a mudança da perspectiva sobre o tempo, que pouco a pouco afastou os elementos da natureza e passou a utilizar os relógios das fábricas para domesticá-lo. Além disto, ocorreu na década de 1950 e 1960 a hospitalização do parto, o que ajudou a atrelar o nascimento ao horário do plantonista. Por isso que a maioria dos médicos preferem a cesariana, pois o procedimento está de acordo com o horário deles e não com o natural criança-mãe. Socialmente naturalizado por pais, mães, avós, avôs e outras pessoas. Eles, os médicos, têm consultório, outros plantões e a sua vida para levar.
Em uma das palestras houve um apontamento da médica ao questionar sobre o alto número de cesárias: "Que tipo de indivíduo estamos criando?" Ela apresentou os problemas de saúde que o procedimento cirúrgico poderia vir a desenvolver se a criança nascesse de uma cesária marcada. Eu aprofundei e pensei: Se não temos paciência de esperar o tempo da criança, o que dirá a ouvir o argumento do outro? Está aí, talvez, uma das razões para tanta violência nas redes sociais entre "ptralhas x psdbistas, esquerdistas x direitistas, comunistas x capitalistas, e tantos outros istas constituídos por vários ismos.
Talvez, se mudarmos a forma que as crianças estão nascendo no Brasil, podemos superar essa dualidade que dividiu o país nos últimos anos.
3- "Mentira": Ouvi em palestras, lançadas pelos médicos, pelas enfermeiras, pelas doulas e por outros pais para recorrem à ela, como uma forma de autodefesa. Entretanto, ela esteve presente durante a gestação, com o argumento de aliviar a pressão de familiares, amigos e colegas de serviço para que não colocassem medo na gente sobre o parto. Eu usei. Me envergonho? Acho que não. Eu, metido a revolucionário e aquele cara que "fala mermo", recorri à ela. Mas me incomodou bastante, pois se queremos mudar a forma de nascer, mentir "é um passo atrás", mas como disse Lênin, em 1922, "para dar dois para frente". Depois do nascimento, contamos a todos essa vitória que era dos que estavam envolvidos e nos estimularam a mentir. Era mentir a forma que ia nascer, a data provável, a última menstruação, o preço do serviço e por aí vai. Como diz a minha mãe, quem mente se enrola e às vezes me enrolava que acabava falando a verdade.
Espero que o nascimento da Lis possa ter encorajado outras mulheres. Tenho muito orgulho da minha esposa ter conseguido parir.
O parto não depende só da técnica, mas também de amor. Isto é um dos parâmetros que vai constituir a futura relação entre filhos e pais.
E o nosso parto como foi? Foi bom. A Érica entrou em trabalho de parto à noite, um momento meio complicado, pois é hora de eu dormir. Mas consegui assisti-la psicologicamente e fisicamente com massagens e apoio, apesar do sono. Eu me dei nota 6 e ela me deu 8. Fiquei feliz!
Durante o trabalho de parto na Opima, fiquei meio perdido sem saber muito bem o que fazer. O que os livros, as palestras, os vídeos diziam sumiram um pouco da minha mente. Na hora do nervoso, quem é capaz de segurar a peteca? A Lis nasceu em uma banheira e fui o primeiro a segurá-la. Porém, fiquei tão nervoso, que nem reparei que havia duas voltas do cordão umbilical em torno do seu pescoço e achei que estava matando-a afogada na água. Já a entreguei para a médica, pois ela sabia "mais do que eu". Lógico!
Pode ser doideira minha ou mística, mas a Lis nasceu junto com o Sol, talvez tenha um significado filosófico de um novo tempo está surgindo em um novo dia, o de ser pai.
Por fim, vale uma frase que me falaram muito durante a gestação: "Aproveite para dormir". E eu dava risada... não durmo direito há duas semanas. Mas são semanas de muita felicidade e de amor indescritível.
Um abraço!
E #foratemer
Gustavo Boechat
Julho-2017

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